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18 de setembro de 2018

Um amor na USP

Era outono e as folhas daquela árvore tremiam.

Também eu, também nós tínhamos um tremor novo,

uma febre nova todas as tardes.

Como o mar, que chega até as rochas

e as quebra, e as vence, assim era você, estudante.

Eu conhecia a sua solidão, seu corpo, mesmo antes

de ver de perto a sua solidão e o seu corpo.

Estuda muito? Não, estudo pouco.

Vive pouco também? Não, vivo muito.

Suas palavras arrastavam,

era tudo tão nosso de verdade, tão bonito de verdade,

tão simples.

Me fazia recordar daquele menino distante que ainda acreditava em Deus

e em Seus milagres (Mãe, mãe, um dia Deus virá até nós, até os pobres,

e fará justiça, não é mesmo?).

Enquanto isso, era a escola, era o campo verde,

olhávamos fixamente para o campo verde, universitário,

e umedecíamos a grama.

Eram de ouro as folhas das árvores,

e tremiam porque era outono.

Náufragos no jardim, morríamos, ressuscitávamos,

e voltávamos a nos perder,

e a nos salvar, uma e outra vez.

Toquei as chagas daquela paisagem como se toca uma árvore,

uma flor, um corpo,

para acreditar que era real.

Tudo cheirava a vida,

se respirava vida.

E um dia, de repente, alguém,

o vento?,

nos deixou sem livros, sem o que fazer,

de novo náufragos, agora sem salvação.

E ficamos sozinhos, frente a frente,

olhando para o campo verde,

solitário campo, livre campo, vencido campo a nossos pés.

Podia-se renunciar a morrer diante de uma visão assim.

Você está me escutando? Me compreende? Vai comigo?

Não fui.

Era outono e as folhas daquela árvore,

que eram de ouro verdadeiramente, tremiam.

 




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18 de setembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia amor, campo, folhas, livros, ouro, verde

               
              
            
                

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