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10 de dezembro de 2019

Um anjo

Hoje chegou essa menina às minhas mãos. Ela me pareceu um anjo. O corpo frio sobre a cama de aço. Olhei para ela e me entristeci. Estava morta. Suicídio com rum misturado com veneno para ratos. Abri seus olhos com cuidado e vi um brilho rápido em sua pupila. Talvez tenha sido a luminosidade do refletor sobre seu rosto, ou talvez não, não sei. Toquei suas mãos: frias, mas não duras, antes suaves. No canto dos lábios ainda há um pouco de saliva quase prateada, restos do veneno que ela usou para morrer.

Eu sei que era um anjo porque os anjos estão por toda parte. Na sala do café do necrotério meus colegas disseram que era uma prostituta, mesmo que aparentasse ser pouco mais que uma menina. Contaram que ela chegou com um vestido vermelho, decotado e justo, vulgar, e que dava para ver os seios e a calcinha. Eu a vi nua sobre a cama. Seu corpo fazia uma sombra cinzenta no brilho do aço. Era doloroso olhar para ela, imóvel nesse espaço gelado da câmara frigorífica. Um anjo, disso tenho certeza. Não vieram reclamar o corpo. Pessoa alguma apareceu dizendo “Cadê minha irmã?” “Onde puseram minha filha?” “É aqui que vão retalhar minha neta?”

Os anjos sempre andam sós. Olham por todos mas não há quem olhe por eles. Por essa menina certamente ninguém olhava.

 




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10 de dezembro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos anjo, corpo, nua, suicídio

               
              
            
                

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