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9 de janeiro de 2017

Um caroço de cereja entre os dentes

Ao meio-dia o sol derrete cabeças, e o céu sem nuvens é uma ameaça tão azul quanto terrível. O condenado, exausto depois de vários dias submetido ao castigo, ainda resistia amarrado ao poste de madeira. Sua vista turvada agora não distinguia formas nem cores, mas pôde ouvir os passos de alguém saltitante que se aproximava. Fez esforço para separar os lábios quando sentiu perto do rosto o cheiro e o frescor de uma fruta doce que foi introduzida em sua boca. Mordeu e mastigou lentamente a polpa, e sua língua saboreou o suco generoso que reanimou um pouco seus sentidos. Foi quando abriu com dificuldade os olhos e conseguiu ver, parado na sua frente, um menino que, virando a cabeça de um lado a outro, olhava admirado para ele.

O condenado agonizava. Recordou sua infância, brincando com os amigos na beira do rio, comendo cerejas e pitangas diretamente do pé e cuspindo as sementes na água, divertindo-se com os círculos, um após outro, que se formavam na superfície.

Lembrou-se também de Dália, que tinha cabelo comprido e olhos tristes e nunca soube o quanto ele a amava. Sumiu como some tudo o que é bom.

Naqueles poucos segundos que o separavam da morte, lembrou-se também de seu país e, sem que pudesse evitar, dos motivos que o levaram até ali para que morresse, exangue. Pensou no seu desejo apaixonado de igualdade entre os homens e concluiu, como o poeta, que são demais os perigos desta vida pra quem tem paixão.

Passado o meio-dia, o poste que lhe roubara a liberdade agora o brindou com um pouco de sombra, e o homem tombou a cabeça e morreu sorrindo, com um caroço de cereja entre os dentes.

 




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