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7 de março de 2017

Um cidadão comum

Grampeou suas ideias na cabeça como seu pai ensinou que grampeasse os trabalhos escolares: com força e sem pensar. E saiu para a rua. O vento não conseguiu desgrudá-las, nem os tropeços que sofreu nas esquinas e avenidas. Continuaram bem grampeadas, a despeito dos barulhos, do trânsito e da multidão que passava ao seu lado.

Tomou um café, leu o jornal, observou os aviões no céu e as crianças que iam à escola. As ideias seguiam firmes em sua cabeça, sobre seus olhos, tais quais os trabalhos escolares de antigamente. Olhou vitrines, folheou livros russos nas livrarias do bairro, percebeu quando o sol se escondeu sem pedir licença, viu também quando a lua surgiu entre duas nuvens. As ideias permaneciam no mesmo lugar.

Na entrada do prédio foi abordado por dois pivetes. Entregou-lhes o celular e o pouco dinheiro que tinha. Parou um pouco para respirar e refazer-se do susto. Ainda assim, continuava dono de suas ideias: chegou a passar a mão na testa para confirmar que elas continuavam lá. Subiu até o apartamento pelas escadas, como sempre fazia.

Abriu a porta, tirou os sapatos e lavou o rosto. Olhou-se no espelho e percebeu que algo tinha mudado. Alisou a testa: não havia sombra dos grampos nem rastro das ideias em sua cabeça. Certamente tinham desaparecido em algum momento de distração, assim como desaparecem as sombras quando se apaga a luz. Ele tinha se convertido, mas ainda não sabia como, num cidadão comum.

Agora o chamam de senhor, olham-no nos olhos, pedem sua opinião. A mulher lhe acaricia as mãos como acaricia o pelo do gato de estimação ou a seda de um vestido novo. Há um menino que o chama de pai.

E ele… ele não para de vomitar em sonhos e de chorar convulsivamente debaixo do chuveiro. Triste. Vocês tinham que vê-lo.

 




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7 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cidadão, comum, ideias

               
              
            
                

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