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12 de agosto de 2015

Um dia para não esquecer

meninoFabiano tinha doze anos quando foi entregue ao capataz da fazenda distante. Tinha que ajudar no sustento da família. “É um menino esperto, aprende rápido, dá conta do recado”, dissera o pai. Segurando as lágrimas, Fabiano se despediu de sua mãe e ouviu atentamente o que ela lhe disse: que tivesse cuidado, que respeitasse os mais velhos, que se agasalhasse, que fosse gentil com todos, que ficasse longe de confusão. Fabiano assentiu com a cabeça, abraçou a mãe e foi embora com o desconhecido.

Não demorou muito para que se acostumasse com a nova cama, um saco grande de estopa que lhe deram quando chegou à fazenda, para que enchesse de palha. Já conhecia a falta de conforto. Menino, tudo era uma aventura.

Na manhã do segundo dia, enquanto colhia café junto com os outros empregados, Fabiano percebeu que seu nariz sangrava. Não deu importância, já que não doía. Mas o sangue não parava de descer, e em poucos minutos sua camisa estava vermelha e empapada. O capataz correu até ele e, com um pano e inclinando a cabeça de Fabiano para trás, tentou conter a hemorragia, sem conseguir. O sangue continuava a brotar do nariz do rapazinho.

Um carro parou ali perto e dele saiu um homem que se aproximou dos dois. Era o dono da fazenda. Cumprimentou o capataz e perguntou o que havia com o menino.

– Pois o senhor vê, o nariz não para de sangrar. O rapaz já está pálido. Será que o senhor não poderia levá-lo até o hospital da cidade?

– Ora, isso não é nada, logo passa. Se eu colocar o garoto no carro, vai manchar os bancos com todo esse sangue. Jogue um pouco de água fria no nariz e tudo ficará bem.

Voltou para o carro e partiu. Pouco depois o nariz de Fabiano parou de sangrar e ele voltou ao trabalho.

À noite, Fabiano estava extenuado. Embora tivesse comido pouco, não sentia fome. Não quis nem sentar perto da fogueira junto com os demais. Aquela noite, não. Estava pensativo. “Se eu colocar o garoto no carro, vai manchar os bancos com todo esse sangue” – a frase dita pelo dono da fazenda não saía de sua cabeça. Deitado no colchão, pensava e repensava nessas palavras e no que elas significavam.

Antes de pegar no sono, Fabiano concluiu que ainda não era um homem, mas nesse dia tinha deixado de ser um menino.

 




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12 de agosto de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos dia, menino, sangue

               
              
            
                

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