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21 de julho de 2015

Um dia, uma mosca

moscaAinda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo.

Ele a afastou com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Não entendeu que, naquele momento, estava convertido num banquete de oito talheres para um ser faminto. A mosca volta a se aproximar, sem cautela, decidida. Quer lambê-lo, acariciá-lo, beijá-lo, chafurdar nas lagoas de suor formadas entre as dobras da pele. Amor. É assim que ela ama. Novo desprezo, gesto de mão mais enérgico, tão inútil quanto o anterior. Ela o olha, pousada na borda da mesa. Ele não se dá conta, entretido na leitura, embora tenha perdido um pouco a concentração. É difícil manter-se atento às palavras impressas quando uma mosca – a sua mosca! – está aí tão perto.

Ela o estuda. Prepara nova investida, tomada pelo desejo incontrolável, lascivo, de se misturar ao cheiro podre que emana daquele corpo suado. Rechaçada uma e outra vez pela mão violenta dele, ela pousa não muito longe dali, perto da janela. Uma lâmina aquosa quase imperceptível desliza, como orvalho, por seu rosto diminuto e brilha durante um décimo de segundo sob o sol daquela tarde. Pouco tempo depois estará morta, possivelmente esmagada pelo tapa que ele lhe dará quando ela menos esperar. Pronto. Assim, ele voltará à leitura e à tarde modorrenta, sem ter nunca a consciência de que um dia houve uma mosca que o amou mais que ninguém.

 




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