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24 de março de 2016

Um homem à deriva

derivaNinguém decide por mim, nem mesmo a natureza: sempre amanhece quando quero e onde quero. Ontem foi na sarjeta do cine República, no centro da cidade. Não fiz caso do barulho dos carros e das pessoas ao redor logo de manhã: ainda não era hora do meu amanhecer.

Hoje amanheci na casa de meu amigo mais antigo, aquele que vive dizendo Isso ainda vai te matar, sentindo o cheiro de álcool das minhas roupas. Nunca dou ouvidos a ele. Seu colchão era uma porcaria, mas pelo menos havia um teto sobre minha cabeça. Quando decidi acordar, me levantei e me crucifiquei na janela, recebendo no rosto o calor do sol. Fechei os olhos por uns instantes. Não consulto relógios, sei a hora pela temperatura e por minha intuição. E decidi que são três da tarde, que estou feliz comigo mesmo e que agora cairia bem um sanduíche para silenciar os gritos de meu estômago.

Saio sem me despedir de meu amigo. Cambaleio pela rua, olho a cidade à minha frente e penso que não há nada, nada mesmo, mais feio que isso: a minha cidade. Fixo o olhar nos edifícios e nas pessoas entrando e saindo deles, o rosto contraído e a urgência em resolver assuntos desimportantes, e tenho uma vontade desesperada de chorar, mas não choro. Só me entristeço com tamanha ausência de vida. Caminho por avenidas e ruas cheias de humanos sem humanidade, de carros e de lixo, onde é que todo mundo encontra ar para respirar?

Entro no bar costumeiro e peço um sanduíche e uma cerveja. Puxo uma cadeira para perto da porta e ali me regalo com o pão amanhecido. E só então, com a barriga cheia e o olhar vazio, começo a sentir falta de algum carinho e atenção, e percebo que há muito tempo não sei o que é isso. Percebo também, não sem alguma preocupação, os inconvenientes e os riscos de estar completamente sozinho neste mundo, sem ninguém que escute minhas (poucas) alegrias, minhas (muitas) dores, meus (profundos) lamentos e o (último) disparo.

 




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