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29 de outubro de 2014

Um homem e a condição miserável do Homem

noite

Se neste exato momento em que o despertador tocou eu pudesse continuar dormindo até me cansar da cama, fingir que não há tempo nem relógio, telefonar ao chefe e dizer que não pisaria mais naquela empresa mesmo que ele me desse aumento de cargo e salário, se eu pudesse dizer à minha mulher que me esquecesse para sempre e aos meus filhos que o papai não é um super-homem e às vezes, quase sempre, é muito fraco e medroso, se eu tivesse um carro melhor ou um corpo melhor, se eu alguma vez pudesse me comprometer de verdade com alguma coisa, se eu pudesse acreditar, minimamente que fosse, em um desses deuses de que falam padres e pastores, se eu não me sentisse miseravelmente culpado a cada erro que cometesse, se eu fosse capaz de desfrutar dos bons momentos como aquilo que eles realmente são – apenas bons momentos desfrutáveis -, se eu conseguisse me esquecer do passado e o futuro não me angustiasse tanto, se eu tivesse mais confiança em mim mesmo, se não tivesse medo da morte, se não tivesse medo da vida e fosse capaz de viver de forma irresponsável, se eu fosse suficientemente corajoso para largar tudo para trás e perseguir uma ilusão, se eu não vivesse tão aflito para acalmar as dores do mundo, se eu fosse bom como São Francisco de Assis, se não acordasse todas as manhãs e desligasse o despertador, se não tomasse banho e me vestisse, se não fechasse a porta do apartamento e caminhasse até o metrô como em todos os dias, se não andasse apressado até o escritório, se não chegasse à minha mesa depois de dizer “bom dia” a todos os colegas, se eu não começasse imediatamente a trabalhar em meu computador…

Se eu pudesse não ser eu mesmo só por um dia…

 




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