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2 de janeiro de 2017

Um homem que espera

Abelardo espera numa esquina. Não se sabe muito bem por que nessa esquina e não em outra. O lugar da espera não tem relevância alguma, porém. E nem se conhece com exatidão, ademais, o motivo pelo qual Abelardo espera. Ele sabe esperar como ninguém porque pratica esse exercício há muito tempo. Tem técnica, método, know-how, arte. Gosta disso, lhe dá prazer. Quando menos se supõe, ele para num lugar qualquer e espera. Se encontrar algo às costas — uma parede, um muro, uma cerca, uma porta — é nesse algo que Abelardo se encosta. Firma-se num só pé; o outro, para lhe dar equilíbrio, está arrimado no mesmo algo em que suas costas estão. E assim pode-se ver Abelardo parado, olhando para algum ponto indefinido, e sobre ele se pode concluir, sem dúvida ou medo de errar: Ali está um homem que espera.

Não é preciso identificar o que seus olhos procuram, nem notar que sua cabeça, ventilador incansável em noite quente, vira de um lado para outro. Não é preciso nada disso para se ter certeza de que Abelardo é um homem que espera: nem o suor que abre caminho testa e rugas abaixo, vindo dos cabelos, nem o cansaço que lhe verga a espinha, nem a aflição, nem a angústia, nem a melancolia que envolvem e dão forma à sua figura solitária e triste. Ele apenas espera.

Como agora, nessa esquina, e não em outra. Poderia ser sob uma árvore como aquela ali defronte, ou ao lado de um poste iluminado como aquele no fim da ladeira, ou num banco de praça, ou na interseção barulhenta entre duas avenidas, ou ainda sob a chuva sem ao menos abrir o guarda-chuva. Ou numa estação de trem. Ele para onde lhe dá vontade, não importam a hora, o lugar e o tempo gasto nessa atividade. Numa dessas vezes, com um pouco de sorte, pode ser que Heloísa apareça.

 




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2 de janeiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Prosa Poética espera, esquina, homem

               
              
            
                

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