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13 de outubro de 2014

Um homem sentado na privada

Um homem sentado na privada é um homem sentado na privada, nada mais. Não há muitas considerações filosófico-existenciais a extrair desse fato, além da constatação de que as pessoas, pelo menos uma vez ao dia, sentam-se na privada. É um momento de intimidade a que todos temos direito. Há os que aproveitam esse momento para pensar, outros para fumar, outros para ler, alguns falam ao celular, uns cortam as unhas das mãos e dos pés, outros ainda cantam ou assoviam e por aí vai – são atividades secundárias, periféricas, que vêm acrescentar alguma cor ou perspectiva ao fato de se estar sentado na privada, fazendo o que normalmente se faz quando se senta numa privada.

Aqueles que moram sozinhos geralmente fazem dessa atividade um momento mais que prosaico de seu dia a dia: nem fecham a porta do banheiro, pois não há ninguém que possa incomodá-los nessa hora de suprema intimidade. Sentam-se na privada e ali ficam, às vezes durante horas, caso não tenham nada mais interessante para fazer. Para os casados a coisa muda de figura: a outra parte do matrimônio também exige o seu direito de se sentar na privada, e muitas vezes há conflitos nessa questão: de horários, de tempo gasto na atividade, de escolha de ações periféricas etc. Ou, pior ainda, há ocorrências sem o menor sentido, cuja única função é interromper o empreendimento de se sentar na privada. Foi o que aconteceu com Gustavo, nosso herói. Ele é casado com Letícia, nossa heroína. Nem é necessário conhecê-los a fundo para saber que ambos, pelo menos uma vez ao dia, sentam-se na privada. Foi com eles que se deu o seguinte diálogo, quando Gustavo estava em seu turno:

– Gustavo, posso entrar um pouquinho?

– Claro que não, não percebe que estou aqui dentro? – gritou Gustavo, temeroso de ver exposta a sua vulnerabilidade, que é o sentimento que todos experimentam quando estão sentados na privada.

– Mas é só um momentinho. Eu nem olho pra você. Só quero pegar uma coisa que esqueci aí dentro e preciso dela agora.

– Não! – Gustavo foi enfático.

– Custa você abrir a porta? Eu entro, pego e saio. Finjo que você nem está aí sentado.

– Já disse que não, o banheiro está ocupado.

Aff, você é esquisito!

– Bom, em alguma coisa eu tenho que ser normal…

Donde se conclui que, para nosso herói, sentar-se na privada e reagir com veemência a invasões de privacidade é uma coisa perfeitamente aceitável em nossa sociedade e também num matrimônio. Todos têm obrigação de se defender quando estão vulneráveis, mesmo que essa defesa seja contra a pessoa com quem compartilhamos mil outros momentos de intimidade ainda maior. Nossa heroína não insistiu porque sabia, ela também, que quando se senta na privada quer-se apenas estar sentado na privada, sem outras considerações filosófico-existenciais. É assim e pronto.




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