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15 de fevereiro de 2019

Um homem, um passeio

Às vezes, sem me dar por isso, me vem uma velha urgência de sair à rua e confraternizar com minha espécie. Meto nos bolsos do casaco uns pedaços de paciência para não acontecer que, em plena calçada, comece a chorar no meio de uma gargalhada desenfreada.

Não sou, nessas ocasiões, senão um homem apenas. Um homem que dobra a esquina seguido de sua sombra, aquela que nunca o abandona. Um homem, nada mais que isso, que fala com sua sombra com confiança e coração aberto, como costuma ser uma conversa entre amigos verdadeiros.

Por fim, sentado num banco de praça ou na mureta de um viaduto ou à mesa de um café, me dedico a observar as pessoas que passam. Como na cidade em que vivo há muita gente, há demasiado para ver e, enquanto olho os estranhos um a um, me pergunto e pergunto ao firmamento o que fazemos todos aqui, se foi um golpe gigantesco de sorte ou azar, se foi uma piada que alguém contou num espetáculo de comédia ou se apenas nos abandonaram na vida, tão jovens e indefesos que nem ao menos pudemos protestar ou resistir.

Sentado com minha sombra ora nos meus pés, ora atrás de mim, digo seriamente a ela que não quero discutir, vamos preservar a compostura e a calma. Comemoremos, segredo-lhe, que haja, depois de tudo, e apesar de tudo, um lugar para o rapaz que passa apressado, com um enorme futuro nos olhos, e um lugar também para o velho arqueado que anda arrastando o passado grudado nos calcanhares.

Lugar também para quem se apressa na direção de uma esperança e volta, pouco depois de uma hora, a cara aberta e farta de sorriso. Para a mulher em cujo rosto a natureza fez uma obra de arte. Para quem tropeça e cai, é socorrido e se levanta envergonhado, disfarçando a dor. Para quem vai em disparada, disposto a comer o mundo e nunca sacia a fome. Para quem considero meu irmão pelo simples fato de me retribuir o olhar. Para quem considero meu irmão por nem sequer me dirigir o olhar. Para quem morrerá amanhã e passa assoviando uma canção. Para quem morreu tantas vezes e, ainda assim, chega pontualmente ao seu trabalho. Para quem tem um enorme buraco no peito mas não desiste: ama, e vai amar sempre. E para quem, como eu, sai à rua com sua sombra para tentar compreender o que fazemos aqui.

Coberto de poeira de humanidade, abraço com entusiasmo um pedestre. Depois peço perdão a ele, dou-lhe alguma explicação sobre meu gesto, digo-lhe que não se sinta ofendido, foi um impulso. Sacudo o corpo como um cachorro recém-saído do banho e vejo as partículas de pó encherem o chão em volta de mim. Retorno contando os passos, agarrado à sombra que nunca me abandona. Eu tinha chegado à rua com perguntas, volto à casa com as mãos vazias de respostas.

 




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15 de fevereiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética homem, lugar, passeio, rua

               
              
            
                

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