Close

1 de fevereiro de 2018

Um leão na beira da estrada

De longe vi e identifiquei o leão parado na beira da estrada. A juba grisalha e rebelde era inconfundível. Era ele, encostado em seu carro estacionado no acostamento. Tinha nas mãos um galão de plástico vazio e parecia aguardar uma carona. Eu passei de moto, capacete posto, só os olhos à mostra. Meu pai não me reconheceu.

Sem gasolina?, perguntei. Sim, ele respondeu. Sobe, indiquei com a cabeça o assento traseiro.

Meu pai ajeitou-se na moto, agarrou minha cintura e eu arranquei. Havia cinco anos que não nos víamos nem nos falávamos. A última vez que trocamos um abraço forte foi no enterro de minha mãe. Depois, sem que tivesse acontecido nada de importante, fomos espaçando os telefonemas até que deixamos de nos falar.

Percebi pelo espelho retrovisor como ele abaixava a cabeça para se proteger do vento, a juba dançando livremente sobre sua cabeça. O rosto de meu pai estava envelhecido, embora seu corpanzil — forte, vigoroso, saudável — dissesse o contrário. Vi quando ele olhou para minhas botas e certamente percebeu que o salto do pé direito era mais alto que o esquerdo. Meu pai tinha me falado muitas vezes do desgosto que tinha sentido quando o médico, ainda na maternidade, disse sobre esse meu defeito de nascença. Isso nunca me incomodou além das chacotas dos meninos do colégio, mas ele e minha mãe se sentiam culpados por esses centímetros a menos, ou a mais, segundo o ponto de vista. Jamais consegui descobrir qual das minhas pernas era a defeituosa.

Dirijo com habilidade e cautela, não me aproximando demais dos carros que iam à frente. Notei que meu pai, em que pese o pudor de estar em contato físico tão próximo com outro homem, agarrava-se com firmeza à minha cintura com um dos braços, enquanto com o outro segurava o galão de plástico. Seus olhos não saíam do meu pé direito e do salto mais alto que o outro. Não conversamos durante o trajeto. Talvez ele estivesse se perguntando se eu não poderia ser seu filho. Quem sabe estava recordando a série de médicos a que me levou quando pequeno, as intermináveis radiografias, a sucessão de opiniões sobre a provável causa do meu defeito físico, até a sugestão, feita por um especialista, de colocar um salto maior que o outro nos meus sapatos, de maneira a compensar a diferença de altura. Ou então estava revivendo o olhar de decepção que me dedicava quando me via coxeando pelo chão da sala.

Quando parei no sinal vermelho, senti sua mão pressionando minha barriga. Uma demonstração de afeto? Não sei e não esbocei reação. Logo chegamos ao posto de gasolina e ele desceu da moto. Disse, sem olhar em seu rosto, que não poderia levá-lo de volta, ele respondeu que encontraria sem dificuldade outra carona até seu carro. Percebi que ele tentava ver meus olhos e meu rosto pela viseira do capacete. Muito obrigado, moço, você me fez um grande favor, seus olhos eram insistentes na busca dos meus. Eu respondi Não tem de quê e fui embora. À noite, já em casa, meu telefone tocou várias vezes. Sempre desligavam quando eu atendia.

 




Tags:, ,

1 de fevereiro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos leão, pai, perna

              
            
  1.     
                        
              
            
                

Deixe um comentário