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6 de maio de 2019

Um pássaro

Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que não faz um minuto pousou muito perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Ao menos foi isso que ele sentiu: aquele pássaro estava adivinhando o que ele estava prestes a fazer e certamente veio para dissuadi-lo e acalmá-lo.

Foi aí que duvidou. Num repente a vida não pareceu tão bruta. Ficou uns momentos olhando para a ave, e ela para ele. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. E havia agora um pássaro em sua vida, e uma dúvida.  Tinha que repensar. Tirou a perna da mureta da ponte. Iria recomeçar, percebeu-se pronto. Virou-se decidido a ir para casa e celebrar a nova vida que teria dali em diante. Não viu o caminhão que vinha veloz pelo outro lado e o pegou em cheio. Deu três voltas no ar antes de se transformar numa pasta de ossos, sangue e vísceras sobre o asfalto.

A morte nem sempre se apresenta como a literatura conta ou como os filmes mostram. Às vezes ela tem a aparência inocente de um pássaro, tem olhos e jeito de pássaro. Com alguma sorte, pode-se ouvir um trinado à guisa de canção de despedida.

 




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6 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos morte, pássaro, ponte, vida

               
              
            
                

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