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11 de outubro de 2018

Um rosto conhecido

A mulher que me puxou pela mão, quando eu estava caído na beira da estrada, tinha os cabelos brancos e o olhar cansado. Era um rosto conhecido, mas minha memória insistia em falhar. Não era velha, tampouco moça, estava apenas cansada. Nem sua voz, também familiar, clareou o apagão que invadiu minha cabeça. Era apenas uma voz diferente de todas as outras que eu tinha escutado na estrada, naqueles intermináveis minutos em que fiquei no chão. Ela me disse: “Entre, suba aqui, está muito frio aí fora”. Entrei no carro e a olhei de perto. Quis perguntar seu nome, mas minha garganta estava fechada. Vi que estávamos chegando e aproximei meus lábios de seu ouvido: “Cuidado com essa curva, foi onde eu morri”. Espero sua reação. Nada. Não houve grito, espanto, nem músculos crispados. Nada. Ela olhou para mim e sorriu. Acariciou meu rosto de leve. “Eu sei, querido, eu sei”, ela disse, e voltou os olhos para a estrada.

 




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11 de outubro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos curva, estrada, mulher, rosto

               
              
            
                

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