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29 de janeiro de 2016

Um trem parado sobre os trilhos

condutor de tremAs mãos, garras firmes sobre as cordas do freio. Como rio minúsculo de água salgada, o suor desce da testa e empapa o colarinho azul do uniforme. O coração bate a ponto de quase cortar a respiração. As estações, uma a uma, passam pela retina do homem que está em pé em seu posto, condutor do trem e guardião das paradas e partidas. Tudo acontece sob seu comando. É para isso que ele está ali. É para isso que ele sempre esteve ali. Seus olhos nunca viram outra paisagem e suas retinas estão repletas de trilhos esticados, reluzentes, infinitos, e túneis, e estações, e chegadas, e partidas, e gente que sobe e desce, mais ou menos como sua vida de homem sozinho de sessenta anos: abrir e fechar a porta da casa, ligar e desligar a televisão, deitar-se e levantar-se da cama, ir e voltar do trabalho. A diferença é que nessa sua vida não há outras pessoas. Ninguém o espera em casa quando termina de conduzir o trem e fecha a porta encerrando o expediente daquele dia.

Ouve-se o som estridente do freio e o assovio das portas que se abrem; em seguida, o barulho ensurdecedor dos que saem e dos que entram. Depois, novo assovio quando as portas se fecham. O trem volta a deslizar nos trilhos, oferecendo a mesma paisagem aos olhos cansados do homem que o dirige.

O condutor está agora com a camisa azul inteiramente molhada de suor. Olha para as cordas do freio, depois para o banco onde está sentado e calcula a distância entre os dois. Olha em seguida para a frente e à sua frente está um trilho interminável, uma linha de ferro que o trem vai devorando sem nunca saciar a fome.

O homem continua em seu posto, e ninguém dá por ele. Leem o jornal do dia, ou escutam música, ou fixam os olhos na televisão pendurada no teto ou apenas olham pela janela – absolutamente ninguém repara no homem a poucos metros dali, responsável por fazer o trem andar e parar, cada ação a seu turno.

Foi um só tranco e, súbito, não havia mais a próxima estação. O trem tinha parado, freada brusca e inesperada, seguida do espanto dos que lotavam os vagões. Os passageiros ergueram os olhos e viram lá adiante, depois do vidro que separa a cabine do condutor, a corda balançando, depois a corda quieta. E o corpo. E a fumaça. Um só grito tomou conta da multidão, que começou a pular as janelas do trem, fugindo da visão aterradora.

Talvez a vida fora do trem pudesse ser diferente, uma outra vida, mas ele já não precisa mais saber disso. Também não verá mais os trilhos, nem os túneis, nem abrirá ou fechará as portas dos vagões. Outra paisagem está reservada para seus olhos, finalmente.

 




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29 de janeiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos condutor, paisagem, trem, trilhos

               
              
            
                

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