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24 de maio de 2016

Uma fábula alucinada

corvoEstá lá escrito no livro A História Universal das Galinhas, pra quem quiser saber.

Na fazenda da senhora Carolina, num belo dia de sol, a galinha Quitéria, a preferida da dona, amanheceu virada do avesso. Já não era mais ela mesma. Foi a primeira coisa que disse ao capataz Juracy, quando ele entrou no galinheiro para dar o milho:

— A partir de hoje não me chamo mais Quitéria, que nem sei quem é essa fulaninha. Agora sou dona Miranda, águia real de nobre estirpe. Fique o senhor ciente dessa novidade.

O capataz Juracy gargalhou de estremecer a enorme barriga de lua cheia que trazia na frente do corpo. Depois, sério, tentou agarrar Quitéria pelas asas e pô-la no seu devido lugar: galinha era e galinha sempre seria, tem cabimento esse negócio de águia?

Dona Carolina apareceu de repente, espingarda na mão, e anunciou:

— Se tocar numa só pena da Quitéria, tu é um morto, homem! Se a minha querida Quitéria diz que agora é uma águia, é porque é uma águia, e não será tu que vai dizer que não.

O tempo passou na fazenda de dona Carolina. Os dias, semanas, meses e anos escorreram como mormaço derretendo as tardes — lá o calendário andava sem pressa. E a galinháguia se exibia como pavão para todas as companheiras de poleiro, comia pouco milho para não engordar e ciscava só quando estava disposta, o que não era sempre. O capataz Juracy se mordia de raiva.

Como sói acontecer, nada acontece como se espera. E uma noite dona Carolina passou para o outro mundo enquanto dormia. Teve enterro de madame, muito concorrido pela vizinhança da fazenda. Depois de deixar a patroa no cemitério, o capataz Juracy viu que tinha chegado a hora de ajustar as contas com a maldita Quitéria.

Foi até o galinheiro armado de sangue nos olhos, espuma na boca e uma faca na mão, disposto a dar um fim àquela situação absurda e ridícula. Ele não sabia — coitado! — que, justo naquela manhã, Quitéria já não era mais dona Miranda, a águia. Agora era o corvo Alarico, detentor de um bico tão agudo e afiado quanto famélico. Alarico não teve grande trabalho para arrancar aqueles olhos vermelhos e cheios de ódio que vinham em sua direção.

 




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