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23 de janeiro de 2017

Uma família

Em minha casa os familiares falam ao mesmo tempo, menos eu. Isso causa alguma estranheza em todos, e não raro se perguntam se eu teria alguma doença ou algum retardo mental. Izildinha, minha irmã mais velha, sim, como fala! Ninguém a ouve, como de resto ninguém ouve ninguém, mas não lhe faltam elogios por sua verborragia natural e sua incrível capacidade de emendar uma frase em outra, um assunto em outro. Dizem que ela começou a falar aos catorze meses e desde então nunca mais parou. Como eu quase não falo, outro dia ouvi que consideravam a possibilidade de eu ter sido trocado na maternidade. Achei essa ideia muito assustadora, mas, por via das dúvidas, passei a observar melhor as feições de meu pai e minha mãe e compará-las com as minhas na frente do espelho. Fiquei mais aliviado quando constatei que meu nariz era igual ao da minha mãe.

Somos seis: meu pai, que acabou de chegar aos sessenta anos, minha mãe, que se aproxima de meio século de vida, minha irmã Izildinha, que completou dezoito e nunca se esquece de mencionar que já é de maior, meu avô que já chegou aos noventa, mas pensa que tem oitenta e cinco, e minha avó, cuja idade eu não sei, tampouco ela. E eu, que sobrevivi para chegar inteiro aos dez anos.

Em minha família falar demais parece ser genético. A cada dia se instala uma verdadeira tertúlia no café da manhã, em que todos bebem de tudo, menos café — minha avó, por exemplo não abre mão da taça de licor de hortelã, bom para despertar as energias adormecidas.

Eu não entendi até hoje como meu avô consegue ouvir rádio, ver televisão e ler o jornal sem que isso o impeça de gritar com minha mãe e mandar que eu tire o dedo do nariz, rapazinho porco! Meu pai se preocupa com as contas a pagar, comenta que a inflação voltou e que nesse governo só tem ladrão. Minha mãe corre pela casa inteira, limpa o banheiro e arruma os quartos e decide em voz alta qual será o menu do dia. Aproveita para dar bronca em meu avô, que insiste em caminhar sem usar a bengala, isso é para gente velha, resmunga ele, e para convencer minha avó, pela enésima vez, de que eu não escondi sua dentadura postiça, esse pirralho vai vender meus dentes pra comprar chumbinho, diz a velha, olhando feio em minha direção.

Minha irmã Izildinha só se preocupa com a morte. Toda manhã ela vai até a cama de cada um para dar um beliscão. Quer ouvir o ai de todos bem cedinho. Seu temor é que alguém morra durante o sono. Até hoje isso não aconteceu, mas ela não desiste. Assim que vê todos de pé, sorri, satisfeita, e desanda a falar. Sempre que pode, visita o cemitério da cidade. Seu passeio favorito é andar entre as lápides para ver se chegou algum defunto novo. Diz que só ali encontra paz. Minha mãe conseguiu, com muito custo, fazê-la perder a mania de comparecer a velórios de desconhecidos. Como todos estavam acostumados a só ouvi-la falar sobre morte, causou enorme surpresa quando ela, assim que viu todos reunidos para o café da manhã, deu uma declaração sobre a vida:

— Estou grávida. O pai é o Chico Lacraia.

Chico Lacraia é funcionário do cemitério, encarregado da exumação de cadáveres. Uma profissão linda, segundo minha irmã Izildinha. Minha mãe desmaiou. E pela primeira vez na história da família eu pude ouvir o zumbido de uma mosca na cozinha de casa.

 




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