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9 de outubro de 2014

Uma história para Gabriela

A pequena Gabriela acordou no meio da noite e fez um escarcéu, pedindo aos pais que lhe contassem uma história. O pai resmungou, irritado, que já não aguentava mais essa menina birrenta, que teria que trabalhar no dia seguinte, que seu miserável chefe, aquele explorador filho de uma égua, o convocara para reuniões chatíssimas durante toda a manhã e ele teria que estar descansado, que ele trabalhava feito um burro de carga e ganhava uma porcaria de salário, que era melhor ter continuado solteiro e sem essa chatice de casamento, que a Gabriela era muito mimada, cheia de mimimi, que você era a culpada de tudo, tinha transformado a menina numa criança insuportável. Insuportável!

A mãe retrucou na mesma medida: “E você não se lembra de que ela é sua filha também? Tem a mesma responsabilidade, não tire o corpo fora, não senhor!. E se é para falar de trabalho, você pensa que eu fico na flauta o dia inteiro? Que não faço nada? Você já viu como essa casa está sempre limpa, tem comida na mesa, roupa lavada e passada? E o supermercado, quem é que faz? Quem é que tem que lidar com a droga do encanador, com a droga do eletricista, com a droga do marceneiro? E quem é que leva e pega a Gabriela na escola? Quem você acha que faz tudo isso? O Espírito Santo?”. Resolveu mudar de tom: “Vai até lá, benzinho. Conte uma historinha pra menina, que ela dorme como um anjo”. Fechou os olhos e caiu no sono.

Furioso, o pai se levantou e foi até o quarto da pequena, já rouca de tanto gritar. “Que história você quer, Gabriela?”, perguntou ele, impaciente. “Chapeuzinho Vermelho, papai”, soluçou a garota, olhos atentos e ansiosos. “Era uma vez uma menina muito feia, muito teimosa, desobediente e malcriada, chamada Chapeuzinho Vermelho”, começou ele. Introduziu no relato vários detalhes inéditos: que Chapeuzinho Vermelho tinha que apanhar todos os dias da avó porque era muito malvada, que não foi um, mas cinco lobos maus que a pegaram e arrebentaram seus ossinhos, arrancaram seus olhinhos e bateram tanto nela que o sangue de Chapeuzinho escorreu pelo chão da floresta e ninguém nunca mais ouviu falar dela. Nunca mais! Quando terminou a história, o pai saiu calmamente do quarto da menina.

Na manhã seguinte, enquanto servia o café da manhã, a mãe de Gabriela comentou com o marido: “A história de ontem à noite fez bem para a Gabriela. A menina ainda está na cama, dormindo de olhos abertos, dura feito uma pedra. Parece até que nem respira. Qual foi a história que você contou?”.




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9 de outubro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos história

               
              
            
                

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