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28 de junho de 2016

Uma nova ordem

nova ordem2Houve um dia em que se descobriu farto de tudo e de todos, do que estava aí e do que havia por vir. Tinha visões cheias de ruídos e sombras, suava frio, a comida lhe dava alergia até transformar sua pele numa chaga que nunca cicatrizava, os cheiros lhe provocavam alucinações e ao falar confundia verbos com adjetivos; arrotava preposições quando tinha fome e não havia maneira de dormir sem que lhe assaltasse o pavor de não acordar. Gritou basta!

Exasperado, rompeu o crânio e arrancou de lá o passado que tanto o aborrecia. Separou pedaços e nacos de um todo cinzento que só lhe causava incômodo, abriu buracos como o mar diante de Moisés, fechou fendas, jogou fora o que não prestava, reconstruiu tudo. Num trabalho minucioso, que durou dias, montou, qual um quebra-cabeça peculiar, uma escultura completamente nova, encaixando as peças segundo a ordem que lhe parecia a mais adequada para restabelecer sua conexão com o entorno. Teve a impressão de conseguir seu intento. Sem o estorvo do passado, começou a gozar sonhos de tecidos vaporosos embalados pelo ar fresco e pela música suave produzida por cordas ao longe. Reconheceu o som delicado de sininhos. Apalpou a carne tenra de frutas da estação. Nas retinas tinha agora a calma plana e imóvel de um lago no inverno. Estava finalmente em paz e com uma perspectiva risonha para o seu futuro — em Marte, que é só lá que essas coisas existem.

Fechou o crânio e prosseguiu a vida, igualmente farto como um dia se descobriu.

 




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