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3 de setembro de 2017

Uma prece para Carolina

Dizem que os monstros saem de dentro do armário e invadem o quarto para atemorizar quem lá se encontre. Não é o que acontece contigo, Carolina, não contigo. O monstro que te amedronta anda na ponta dos pés e entra pela porta mesmo, porque ele já conhece o caminho e conhece o teu quarto. Dizem também que os monstros se escondem embaixo da cama e de lá soltam gritos aterradores, mas não o teu monstro, Carolina, esse fica sobre a tua cama, quieto perto de ti, e tu podes senti-lo e até tocá-lo.

Quando todos na casa dormem, é nesse momento que tu ouves os passos dele se aproximando. Vês a mão monstruosa abrindo a porta e a sombra dele sobre ti. Escutas quando ele te sussurra Shh, não faça barulho, que não te ouça ninguém. E tu ficas quieta, Carolina, por medo. Não do escuro, mas dele.

Tu estremeces quando ele levanta o lençol e, como cão faminto, cheira tuas costas e teus cabelos. Tu, quietinha. Sentes a espessura de uma língua em teu pescoço — a língua dele! — e tens vontade de gritar, mas a mão do monstro está sobre a tua boca, Carolina. E é um monstro grande, pesado, e tu tens medo dele. Tu, quietinha, Carolina.

Então tu dizes para ti mesma que tudo é um sonho. Que nem aquela mão, nem aqueles dentes são de verdade. Tampouco aquelas pernas entre as tuas. Um sonho, tudo. Melhor: um pesadelo, parecido com aqueles que tia Cecília, a tia solteirona e nervosa, conta quando visita tua mamãe para tomar lanche aos domingos. Um pesadelo, tudo: os gemidos, as mordidas no ombro, o cheiro de xixi, aquele líquido quente no meio das tuas pernas, a respiração do monstro perto do teu rosto, a bocarra cheia de saliva escorrendo. O monstro do pesadelo agora está cansado.

Tu podes respirar aliviada, Carolina, que tudo já acabou. Assim como tinha entrado, o monstro sai do teu quarto na ponta dos pés e desaparece. Se puderes, fecha os olhos e dorme um pouco. O sol logo virá.

Quando amanhece é tudo diferente. Tu levantas com o corpo dolorido e vais, sonolenta, até a mesa do café. Lá estão todos: teu papai, tua mamãe, teus irmãos maiores, todos te esperam para a refeição que farão juntos. É um momento de alegria, Carolina, e tu deves desfrutá-lo. Ali estarás entre os que te querem bem.

Do monstro da noite tu não vês nem a sombra, nem uma pista que te mostre por onde andará ele, o que estará fazendo agora que não há escuro e ele não tem onde se esconder. Teu papai se aproxima e te oferece pão com manteiga, pergunta Como dormiste, Carolina? Bem? E tu respondes Sim, papai, dormi bem. Pra que dizer a verdade, Carolina? Ninguém nunca acreditará que exista um monstro naquela casa, muito menos que ele se pareça em tudo com o teu papai, esse papai que te oferece pão com manteiga e um sorriso. Tens apenas seis anos, quem vai acreditar em ti, Carolina?

 




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3 de setembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Carolina, papai, sonho

               
              
            
                

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