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13 de dezembro de 2017

Uma prece para Daniel

Ite missa est, diz o velho padre Bento. Os fiéis se levantam, se benzem e saem da igreja. Tu, Daniel, menino asmático e com uma perna coxa, sabes que é hora de trabalhar e não esmoreces: recolhes todos os objetos utilizados no ritual, o incensário e os livros, apagas as velas com o sopro fraco que sai do teu peito murcho, fechas a sacola de doações e preparas as vassouras e os panos de chão para a faxina. Nunca te esqueces de ajoelhar e fazer o sinal da cruz antes de começar, és um bom menino, Daniel, e o padre Bento gosta de ti.

Tu agora vês o padre Bento entrando no confessionário à espera de ouvir pecados; vês também quando o professor Júlio — o teu professor, Daniel! — se ajoelha e começa a falar baixinho, as mãos postas. Tu sabes qual é o pecado que ele está confessando agora ao padre Bento e abaixas a cabeça e continuas o teu trabalho. Sabes, Daniel, bem lá no teu íntimo, que na próxima semana o professor estará de volta ao confessionário para contar o mesmo pecado, porque ele pecará de novo e disso tu sabes bem.

Depois, quando o professor Júlio se levantar, aliviado por ter recebido o perdão de Deus, o padre Bento vai passar a mão na tua cabeça, Daniel, e dizer que não te preocupes, que sente muito, que essas coisas logo serão esquecidas e que Deus é misericordioso. O padre vai te abraçar, Daniel, beijar o rosário e começará a rezar baixinho. Tu irás para a sacristia, para varrer o chão. Lá as janelas estão quebradas e o vento entra sem piedade, enchendo tudo de poeira. Teu serviço é deixar tudo limpo para o dia seguinte.

Tu, Daniel, serás surpreendido pelo barulho perto do altar. Um grito e o som de um corpo estatelando-se no chão, que enche a igreja agora vazia. Pões a cabeça na fresta da porta para espiar. E vês, Daniel, vês! O professor Júlio está deitado de costas, a boca aberta. O rosto azulado e os olhos arregalados. Em volta do pescoço, o rosário roto do padre Bento, que olha de cima o corpo inerte. Tu ouves a voz raivosa e sussurrada do padre Bento: “Nunca mais com o Daniel, do menino cuido eu”.

Tens trabalho ainda a fazer, Daniel, o padre Bento gosta da sacristia bem limpa todos os dias. Se te perguntarem, não viste nada, nunca viste nada.

 




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