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17 de julho de 2017

Uróboro

Feito uma serpentina retorcida, o dragão dá voltas em si até que alcança morder o próprio rabo. Mastiga sua cauda com gosto, como se saboreasse uma iguaria. Assume ares de melhor degustador do mundo e nada parece lhe cair melhor que esse rabo suculento e cheio de fibras, nervos e carne tenra. Segue descobrindo os segredos e sabores do próprio corpo, que vai abocanhando, lambendo e engolindo com voracidade crescente. Quando já tinha deglutido quase metade de si, sente uma incontrolável vontade de espirrar e o faz, soltando espetaculares labaredas pelo entorno. Seu prazer foi ainda maior ao perceber que o resto de seu corpo, ainda por devorar, tinha chegado ao ponto exato de cozimento pelo providencial espirro de fogo. Agora sim, poderia terminar aquele banquete canibal com gosto e apetite, de acordo com as normas da boa mesa.

 




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