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28 de agosto de 2015

Vai passando a procissão

nossa-senhora-aparecida1Mas como pode ser essa Nossa Senhora tão africana, tão negra, parecendo que não foi acabada direito? – cochichou Marinês à amiga, quase ofendida, vendo a procissão serpenteando pela rua. No meio, bamboleando, carregado por quatro coroinhas quase meninos, o pequeno altar e, sobre ele, menor ainda, a escultura de madeira preta da santa. Marinês estava doida para entrar na multidão e rezar em conjunto o “Salve Rainha”.

Ah, Marcelinha, vem comigo, que eu quero ir lá no meio. Vou perto do andor, quero tocar no pano da santa. Mesmo pretinha e pequenininha, é uma santa, né não? Eu tenho fé, mas não sou beata; sou crente na medida do justo. Não que nem a Viviana, essa que não perde uma missa no domingo, senão a semana “vai me definhando e me corroendo por dentro”, como ela diz. Eu não. Mas eu creio, porque nasci assim e vou morrer do mesmo jeitinho. Mas que coisa essa santa tão pequena, poderia ser a rainha de uma tribo africana, tão negra a pele, e repara os olhos! Meu Deus, Marcelinha, me dá até gastura ver esses olhos, “Salve, Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!”, olhe por mim e pelos meus, ajude o Zé a arrumar emprego, trás de volta o marido da Jucileide, que sumiu e ainda nem conhece o filho que ela teve, a procissão está uma beleza, né, Marcelinha?

Marinês toca no pano da santa e jura que vê duas lágrimas de verniz correndo daqueles olhos, ou talvez fossem lágrimas de seiva, o leite da madeira tão negra de que é feito aquele rosto santificado. “Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei e, depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre”, me arrebata, santa da minha cor!

 




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