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20 de junho de 2017

Valei-me, Descartes!

Dói-me o estômago e perdi meus óculos de leitura. Procuro lidar com essas adversidades com estoicismo, mas não é fácil. Sou muito metódico para tudo, inclusive o sofrimento. Por isso considero incompreensível a perda dos óculos: quando interrompo a leitura, sempre os coloco sobre o livro que estava lendo e assim evito andar atrás dele feito inseto em busca de algo doce. Se não estão postos sobre meu nariz, só podem estar em cima do livro que ora leio. Não estavam.

Não sei o que pode ter acontecido. Depois de quase um dia inteiro procurando por ele, só me ocorrem coisas fantásticas para explicar seu desaparecimento. É assim que pensam as pessoas muito meticulosas: quando lhes falha o método não lhes sobra nada a não ser apelar para o sobrenatural. Assim, rezei um rosário inteiro, com vagar e de olhos fechados, escandindo as palavras do Pai Nosso e da Ave Maria, pedindo ao plano divino que se compadecesse de mim e me fizesse encontrar meus óculos. Minha mulher fazia o mesmo quando perdia o dedal que usava para costurar. Não raro encontrava, depois da oração, dois ou três deles escondidos pelos cantos. Dos meus óculos nem sinal. Deus meu!

Toda essa angústia pela falta dos óculos provocou-me um fogo gástrico, típico das situações de fúria. De maneira geral, procuro não me irritar com nada que não mereça uma alteração brusca de humor, porque a ira é um sentimento muito difícil de equacionar e é certo que produz efeitos indesejáveis sobre o organismo humano. Por isso, em situações assim, sempre busco consolo na ideia de que o corpo é um sistema e, como tal, move-se segundo um método. Nem sempre é assim, admito, e as doenças, que surgem quando menos se espera, estão aí para me contradizer. Isso é o que acontece com todo mundo, menos com minha mulher, que sentia dores de cabeça sempre que um temporal se aproximava. Se alguém quisesse saber como o céu se comportaria na noite de Natal, bastava olhar para minha mulher: se ela estivesse afobada atrás de uma aspirina, era peremptório deixar o guarda-chuva a postos.

Minha mulher não tinha método e, ao que parece, se dava melhor que eu. Ela só perdia um ou outro dedal, que Santo Antônio logo tratava de encontrar, e não sabia o que era dor de estômago. Ao contrário de mim, que tenho um fogo no interior da barriga e não consigo encontrar meus óculos, mesmo tendo método para tudo.

 




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20 de junho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Descartes, dor, estômago, método, óculos

               
              
            
                

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