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18 de outubro de 2016

Vamos mandar Bukowski à merda

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Eu estava me comportando muito bem, mesmo numa situação improvável como aquela. Sentada na poltrona da frente, ela cruzou as pernas de maneira lenta e calculada, deixando entrever que sob a minúscula saia havia uma calcinha negra à espreita.

Tomou um gole de uísque e me disse: Estamos aqui neste quarto, como naquele conto de Bukowski em que a mulher diz que os poemas dele são uma porcaria, e ele responde: “E eu não gosto de suas pernas.” Mas sabe de uma coisa? Eu gosto dos seus poemas, cara, gosto mesmo, gosto muito, eles são muito bons. E riu um riso maroto, sabendo que meus olhos estavam em suas pernas cruzadas e minha imaginação, no vértice que elas escondiam.

So be it, que seja!, se você está dizendo que são bons, eles são bons, eu disse, com a calcinha negra dela agora tomando o controle da situação, dos meus olhos e pensamentos. Eu também gosto de suas pernas, garota. Proponho, então, que mandemos Bukowski à merda, o que você acha? Lá fora está um sol de rachar, e isso não combina nem um pouco com o uísque que tenho nas veias neste exato momento. Essas persianas fechadas sugerem que façamos outra coisa. O que você acha?, perguntei de novo.

Ela riu mais. Eu pensei que, se fodêssemos agora, teria que escrever um poema sobre isso, e escrever um poema não era exatamente o meu desejo naquela hora. Continuamos bebendo nosso uísque, ela, consciente de suas pernas e sua calcinha negra, eu, querendo meter aquele copo de álcool inteiro no meu corpo e ficar muito louco e não pensar em poema nenhum, nem em Bukowski, nem em coisa alguma.

Eu intuía o sol pelas brechas da persiana e no calor que fazia naquele quarto. Talvez por isso mesmo, ou apesar disso, eu não conseguia me esquecer de que era um escritor e o que eu mais queria era ter urgentemente uma máquina de escrever para batucar algumas letras e traduzir aquele instante em palavras descosidas e sem sentido. O sentido, eu sabia, apareceria com o tempo, muito tempo depois. Alguém se encarregaria dessa tarefa: dar sentido ao que escreve um bêbado imprestável como eu.

E o que é essa vontade louca de chorar logo agora? Ela percebeu e se deitou na cama. Puxou minha cabeça para seu colo e eu me deixei ficar ali, sentindo a mão dela nos meus cabelos. Bukowski disse que a poesia abre os olhos, cala a boca e estremece a alma, foi isso que me deu vontade de chorar. Antes de adormecer pensei de novo em mandar Bukowski à merda e em como o romantismo é uma coisa besta, besta, besta.

 




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