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25 de outubro de 2018

Vamos pedir piedade

Quando criança, a gente se distrai com qualquer coisa. Por exemplo, seguir o caminho de uma colônia de formigas, comer cocô de galinha como se fosse jujuba, raspar paredes e provar o sabor do reboco, caçar aranhas em buracos na terra com um barbante e uma mosca morta na ponta, brincar de enfiar o dedo na boca de plantas carnívoras, balançar galho de ipê e ver as folhas caindo como neve colorida e perfumada sobre a própria cabeça.

Adulto, o olhar muda, se transforma. A gente se esforça para tolerar os quilos a mais e os cabelos a menos, aprende a anotar no calendário as visitas ao médico e passa a conhecer dores novas, a considerar as séries inéditas da Netflix muito melhores que sair sábado à noite, a perder facilmente o sono e a corrigir a insônia com um comprimido que o amigo indicou pelo Whatsapp. É nessa fase que a gente começa a falar do tempo nos encontros de elevador, a discursar sobre o reumatismo, a reclamar da comida e a considerar a pizza delivery a maior invenção dos tempos modernos. Num momento qualquer dessa fase a gente se exaspera, vai para a beira do precipício, grita, chora e ecoa Cazuza: Vamos pedir piedade / Senhor, piedade / Pra essa gente careta e covarde / Vamos pedir piedade / Senhor, piedade / Lhes dê grandeza e um pouco de coragem.

Com a aproximação velhice, a gente apenas espera. E a espera é larga e o que vem parece que nunca chega.

Cada geração tem o seu tempo e seu modo de jogar o jogo. Tudo já está disposto: as peças do xadrez, as cartelas do bingo, os dados, o dominó, o baralho, os números, as palavras. Para os impacientes, aqueles que querem tudo para ontem, preparada também está a roleta russa.

 




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