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11 de abril de 2016

Velho espelho

espelho-quebrado-109Ele entrou na sala sem ser percebido e parou no meio. Tirou o chapéu e o colocou sobre a mesa. Sem que eu pedisse ou permitisse, começou a falar. Me contou tudo o que tinha acontecido naquela noite: o sangue na camisa, a marca das lágrimas no rosto, a tristeza que nublava seus olhos, a raiva, a decepção. Me disse mais: por que teria que tirar o revólver do bolso do paletó, apontar a arma para a minha testa e disparar. E atirar de novo, caso eu continuasse a me mexer. Daria quantos tiros fossem necessários para que não houvesse nenhuma centelha de vida em meu corpo. Disse também que não lamentaria nada disso, que voltaria a guardar o revólver no bolso do paletó, colocaria o chapéu novamente na cabeça e sairia de minha casa da mesma forma como tinha entrado: sem ser percebido.

Sacou a arma do bolso e se aproximou de mim. Senti o frio do metal na minha testa. O suor escorria e empapava meu colarinho. Não fechei os olhos; antes, cravei-os no chão com o mesmo pavor com que apoiei minhas costas na poltrona. Fiquei imóvel. Ele disparou.

Naquele milésimo de segundo quis pensar que o ruído do tiro talvez assustasse os passarinhos e eles fugissem esbaforidos do quintal, que meu corpo morto formasse uma escultura elegante, digna de um gran finale de ópera, que minha morte comovesse o bairro e a cidade inteira, que quem atirou nesse desgraçado não tinha sido eu, como também não fui eu quem colocou o chapéu na cabeça depois de apertar o gatilho, e também não fui eu quem saiu da sala em silêncio, sem ser percebido, e muito menos eu quem deixou no chão os cacos de um velho espelho enferrujado, quatro garrafas vazias de vinho e nenhum cadáver.

 




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11 de abril de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cacos, cadáver, espelho, tiro

               
              
            
                

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