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29 de maio de 2019

Vendaval

O Vendaval desistiu. Anos de trabalho depois, ele resolveu parar. Mesmo se quisesse, ele não conseguia mais. O charreteiro tinha entrega a fazer e o bicho não andava. Chicoteou, o Vendaval não se mexia. O homem desceu da carroceria e falou com ele, cara com cara. Não adiantou. Outra chicotada no lombo e nada, animal empacado. Como se explica isso? Tenho dinheiro pra receber, vivo disso, preciso que você ande, será o impossível, Vendaval?

Fez promessas, Logo você descansa, essa é a ultima viagem, juro. Cacete, Vendaval, anda! Faltavam poucos quilômetros até a venda do seu Jair, que tinha garantido o pagamento em dinheiro vivo. As frutas iriam se estragar se não chegasse a tempo.

A mancha branca da cabeça do Vendaval apontava para o chão, idem seus olhos opacos. Outras chicotadas no lombo não adiantaram. Trinta e oito foi quando o charreteiro parou de contar e o bicho caiu, agonizando. A carroceria tombou, as frutas se espalharam, a multidão alvoroçada apareceu de todo lado e carregou quanto pôde. Não adianta, seu Zé Mané, burro quando empaca nem Jesus faz andar. Tá muito velho, não vale a pena perder mais dinheiro com ele. Sacrifica, que é melhor, falou o homem que segurava várias frutas roubadas nos braços.

O charreteiro olhou para o animal quase morto, a carroceria vazia, o chicote na mão, o sol ardendo na cabeça, a mercadoria perdida, o trabalho desperdiçado. O dinheiro que deixou de ganhar. O chicote na mão. O chicote na mão. O chicote na mão. A trigésima nona chicotada deu cabo do Vendaval.

 




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29 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos charreteiro, chicotada, chicote, vendaval

               
              
            
                

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