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4 de fevereiro de 2020

Vertigem

Entro no vagão, acomodo-me no banco estofado e travo a barra de segurança. Estou pronto. Ouço um apito e o trem parte, avançando sobre os trilhos. Primeiro uma subida muito lenta, que faz intuir uma descida vertiginosa, mas não é o que acontece: é quase um passeio num trecho plano e depois uma caída suave, que só provoca um pouco de frio na barriga, insuficiente para emoção maior. Logo vem outra subida e agora sim, o trem aumenta o ritmo até atingir uma velocidade aterrorizante e faz um giro triplo, mortal e completo. Meu estômago se contrai e estaciona na garganta, impedindo-me de respirar, os olhos saem fora da órbita como duas bolinhas de gude atiradas no asfalto, os gritos de pânico saem por todos os meus poros sem que eu consiga controlar, minha boca seca e, dentro dela, a língua parece um trapo esponjoso, gorduroso e sem sabor, minhas mãos estão paralisadas e endurecidas, agarradas à barra de segurança. Tive certeza de que morreria naquele exato instante, pensei. Em seguida, como se me fizesse um favor, o trem percorre mais lentamente outro trecho plano para logo depois chegar à beira do precipício e aí, tomando novo impulso, desce à velocidade da luz, parecendo que ia furar o chão e atingir, em questão de segundos, o outro lado da Terra. Entrou por um túnel escuro e amedrontador e chegou, triunfante, à outra extremidade do trilho. Aos poucos, diminuiu o ritmo até quase virar um trenzinho de brinquedo. Foi quando tudo acabou. O trem se aproximou lentamente do ponto de partida até se deter por completo. Só aí voltei a respirar. Destravei a barra de ferro e saí do vagão trêmulo, os cabelos em pé, as pernas bambeando, sem obedecer aos comandos do meu cérebro. Meus rins gritaram, pedindo atenção, meu fígado fez cara de magoado e meu estômago, depois de um pouco de conversa, aceitou voltar a seu lugar de origem. Abri as narinas o máximo que pude, puxei o ar com força e meus pulmões agradeceram. Soltei a respiração devagarinho pela boca, como se não quisesse me desfazer do ar que havia dentro de mim. Estava um pouco mais calmo agora, apesar da tortura a que me submetera. Soube, naquele instante, que tinha conseguido, finalmente, tirar você do meu pensamento e da minha vida para sempre.

 




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4 de fevereiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos pânico, trem, trilhos, vertigem

              
            
  1. Não há sensação mais libertadora do que essa!! Dói, mas passa, como tudo nessa vida!! A vida, a montanha russa, os sentimentos, tudo fundido!! E, depois, a calmaria… Amei♥️

  2.     
                        
              
            
                

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