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22 de julho de 2020

Vinagre

Ela não falava: regurgitava. Abria a boca e de lá saíam palavras com cheiro e gosto de vinagre, que azedavam tudo ao redor. Nossos diálogos eram assim: sílaba por sílaba, a acidez que vinha dela penetrava meus ouvidos e inundava minha cabeça, confundindo meu cérebro e meu entendimento. O acre das palavras saltava para meu coração, importunando o que antes batia com tranquilidade e compasso certo. Quando sua língua silenciava, meu corpo tinha processado tanta química, que eu poderia escrever uma nova tabela periódica de elementos, sensações e espantos. Tudo estava alterado em mim: meu estômago estava com febre, meus ouvidos tinham visões, minha boca sentia cheiros. No fim, eu só olhava nos olhos dela e percebia que os meus choravam de tanto escutar.

 




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