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6 de julho de 2015

Vinho

vinhoLevanta o copo contra a luz e observa o conteúdo: um líquido de cor amarela, intensa, com tons dourados como os cabelos da pequena Tatiana brincando sob o sol. Mexe o cristal e vê que no líquido não se percebem as lágrimas. É melhor que seja assim. Aproxima o copo do nariz e inspira: um quê de frutas, maçã, talvez, ou o frescor das peras, quem sabe o agridoce do damasco? Há também um aroma de flores – rosa, com certeza, mas também gardênia e um toque leve de jasmim. Bebe. Fecha os olhos e sente o gosto do líquido sobre a língua: doce, como costumavam ser os beijos dele; ácido, como seu humor; e fresco, como seu sorriso branco. Engole e percebe que o sabor permanece por muito tempo em sua boca, tão vivo como a lembrança da última briga, da bofetada que levou, dos insultos que ouviu, das roupas rasgadas e da humilhação. O sabor da despedida e do abandono. Atira o copo longe e termina a garrafa de vinho bebendo no gargalo.

 




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6 de julho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos abandono, vinho

              
            
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