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5 de janeiro de 2015

Viver e morrer no picadeiro

palhaçoAh, como surpreender o público uma vez mais? Isso é o que nós, artistas de circo, nos perguntamos o tempo todo. Como conquistar o aplauso e a admiração dessa plateia exigente e sedenta de novidades? O palhaço, o acrobata, a bailarina, o engolidor de facas, o domador: ser perfeito na execução de sua arte já não basta. Os trapezistas apelam para a sorte e dão um salto mortal de cinco piruetas, sem rede de proteção; os malabaristas usam não três ou seis, mas dez bastões, enfeitados com fitas e sininhos que tocam Bach; o engolidor não enfia mais facas na garganta, mas guarda-chuvas de vários tamanhos; o domador entra na jaula onde não um, mas três leões famintos o esperam. Isso já não traz alegria ou prende a respiração da audiência, porque já não é novidade.

Ficamos velhos e nosso corpo já não suporta mais os excessos, nem somos mais tão belos e exuberantes como outrora, nem demasiado engraçados, nem tão elásticos, nem minimamente flexíveis e ágeis. Como, então, ganhar um “oh!” dessa plateia que já viu tudo? Numa última tentativa, nos deixamos morrer no picadeiro e, ainda assim, não é suficiente, não é suficiente! Isso, qualquer um faz.

 




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    • Atual e verdadeiro. É como diz o ditado: “é preciso matar um leão por dia”. Parece que matar o leão já não basta. A gente tem que morrer junto. Abraço.

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