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22 de outubro de 2015

Viver em tempo de guerra

tempo de guerra– Mamãe, é agora que vamos morrer?

Agachados e apertados um contra o outro, o menino agarra a roupa de sua mãe e puxa com força o lenço negro que lhe cobre a cabeça. Está assustado. A mãe o aperta com força. O som das rajadas de metralhadora é ensurdecedor e invade o refúgio onde eles estão.

– Escute aqui, nós não vamos morrer, entendeu? Daqui a pouco isso passa. Logo haverá silêncio e tudo voltará ao normal.

Ela já estava acostumada. Há anos convivia com a fumaça dos tiros e a visão dos corpos dilacerados nas ruas, que não davam descanso aos coveiros. A morte rondava dia e noite os habitantes daquela cidade seca, feita de poeira, sangue e pedra. Perdera o marido e os dois filhos maiores para essa guerra sem fim, sem motivo, sem sentido. Se pudesse, fugiria para longe desse odor de morte que lhe invadia a garganta. Aperta entre as suas as mãos geladas do menino, trêmulo e fazendo força para não chorar.

– Agora conte comigo: um, dois, três, quatro… Quando chegarmos ao vinte, tudo isso terá acabado e poderemos voltar para casa.

Onze, doze, treze, catorze… Quando mãe e filho estavam com os lábios prontos para dizer E vinte, caiu uma bomba perto de onde eles estavam, tão perto que o barulho deixou o menino completamente surdo. Agora, sob a parede espessa e intransponível do silêncio, ele não resiste e solta o pranto há muito represado. Em sua inocência, acredita que não ouvir mais é um jeito de morrer. E que a morte é mesmo um horror, mas sem som.

 




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22 de outubro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos filho, guerra, mãe, som, surdo

               
              
            
                

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