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3 de agosto de 2016

Viver naquele tempo

trofeuMeu avô sempre contava histórias daqueles anos, quando o futuro era incerto e cinza como o pelo de uma ratazana, dizia. Ele dizia que, naquele então, os mais jovens tinham que emigrar para tentar alguma sorte na vida, e que essa coisa de estudar era quase só para os filhos dos mais ricos. Que os ricos eram muito ricos; quem não era, vivia da caridade dos que tinham dinheiro, mas nem sempre havia caridade. Que os que tinham a sorte de possuir um trabalho não podiam se dar a luxo nenhum, mas se consideravam afortunados por terem como sustentar sua família, bem ou mal. Que a vida se tornava mais cara a cada dia, ao mesmo tempo em que os salários minguavam. Que quase não havia médicos e, se alguém ficasse doente e precisasse de um hospital, o melhor era rezar. Que ter uma casa própria era um sonho ao alcance de poucos, e podia acabar em pesadelo para muitos. Que os políticos fingiam que faziam alguma coisa pra mudar as coisas, mas no fundo queriam que tudo continuasse como sempre foi. Que as leis quase sempre beneficiavam os poderosos, não os justos.

Quando se lembrava daqueles anos, meu avô ficava indignado e lamentava ter vivido sua juventude num tempo tão cruel e desumano, em que o povo mal tinha seus direitos respeitados.

Eu escutava essas histórias e sempre dava um desconto, porque a memória de meu avô falhava um pouco, e às vezes ele não falava lé com lé, cré com cré, mas é muito provável que, no começo do século vinte e um, as coisas deviam ser mesmo do jeito que ele contava. Coitado do meu avô! Devia ser terrível viver naquele tempo.

 




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