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18 de setembro de 2014

Viver sem memória

O sol da manhã o encontrou na rua. Passara a noite lá? Não se lembrava. Mas sabia o quanto era agradável expor o rosto assim, sem nenhuma proteção, àquele calor que vinha do alto. Caminhava devagar e estava triste, como há muito não se sentia. Triste por dentro. A colorida luz do dia contrastava fortemente com o cinza que lhe habitava o peito. Não se lembrava das coisas. Os lapsos de memória estavam cada vez mais frequentes, e isso o angustiava. Era um tormento tentar se lembrar e não conseguir. Muitas vezes desistia logo no começo; noutras, batia de leve as mãos na cabeça, como a fazer despertar dentro dela alguma coisa viva, com significado e sentido. Em vão.

Ele sentou-se na mesa do bar e pediu um café. Enquanto mexia o açúcar com a colherzinha viu, do outro lado do vidro, uma mulher à procura de algo. Estava grávida e era linda, talvez a mulher mais linda que ele já vira. Pensou que tudo valeria a pena se tivesse aquela mulher a seu lado, para cuidar dele, dar-lhe o carinho de que necessitava quando queria se lembrar e as coisas não vinham à memória. Poderia até se casar com ela, se ela quisesse. Daria a vida para ser o pai daquela criança em sua barriga, sob o vestido florido.

A mulher entrou no bar como se buscasse alguém. Quando o viu, foi até ele e sentou-se na cadeira em frente. Ele estremeceu e fez menção de se levantar, mas a voz dela, doce e firme, o deteve:

– Meu anjo, você fez de novo. Saiu sem me avisar e sem tomar seu remédio. Um dia desses você se perde por aí e eu não vou conseguir achá-lo. O que será de mim e do nosso filho sem você?

 




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