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26 de janeiro de 2018

Viver sob a força bruta

Faz muito tempo que não limpam os jardins nem cortam as ervas daninhas. As plantas perderam o viço e crescem, selvagens, abraçando os muros e as cercas ao redor. A porta da escola permanece meio aberta e as janelas sem vidros lhe dão um aspecto de careta macabra, assustadora. Carros abandonados, restos de incêndio povoam as ruas da cidade e, mais além para onde se olhe, as marcas da guerra se estendem como garras, afuniladas por praças e consciências. O cemitério se encheu de fossas comuns; ninguém visita o campo santo porque os que se supõem vivos na verdade há tempos já morreram. Caminham, comem, respiram. Mas estão mortos.

Os vencedores, os de sempre, mostram pelas ruas o seu poderio de homens, armas e cães. Os perdedores, os de sempre, passam com a cabeça baixa, tentando não chamar a atenção dos vigilantes. A vida, essa vida comezinha, voltou à rotina, mas, mesmo assim, ainda se ouve aqui e ali o som de disparos esporádicos, e aqui e ali se pode ver uma poça de líquido vermelho misturado ao barro e à poeira.

O inverno, que contorna a esquina para descer sobre a população, será mais cru este ano, já que o calor humano se transformou em artigo de luxo. O frio vai assustar, dizem os mais velhos, que tudo sabem sobre o tempo, basta que olhem o céu e a sombra torta que faz o sol no meio do dia. Ninguém se atreve a murmurar: os vizinhos, antes gentis e faladores, agora se cumprimentam com um leve movimento de cabeça. Não se sabe quem pode ser um delator, melhor que as bocas permaneçam cerradas. Nas ruas o mimetismo se impõe — o alto dobra os joelhos, o jovem enruga o rosto, as mulheres se escondem atrás de óculos e lenços e cachecóis. É necessário dissimular e não se destacar ou sobressair do resto. Urge meter-se em longas filas para conseguir pão, leite, açúcar ou qualquer outro alimento básico. Nunca há o suficiente para encher as barrigas vazias nem para acalmar a raiva.

Na praça principal montaram uma grande mesa para a comemoração da vitória, adornada com toalha de linho e fina louça de porcelana. Carnes, chouriços, pernis e outros produtos típicos das matanças chegam e são logo engolidos pelos homens e mulheres vestidos para a ocasião. A névoa da primeira hora do dia deu lugar a um sol tímido, envergonhado, cabisbaixo. Os cães olham em volta sem se mover, presos nas correntes e na mão dos donos. Nem sequer mexem o rabo sem autorização. A conversação segue ruidosa. Comentam sobre a jornada sem nenhum tipo de escrúpulo: como corria a presa, apavorada, como foi abatida, como gritou e esperneou, como foi se acalmando até perder a respiração e finalmente morrer.

A poucos metros do festim, jogadas no chão e com a morte nos olhos abertos, as peças expostas. Vinte corpos inertes que descansam, obscenos, sobre o vermelho de seu próprio sangue. Chama a atenção o corpo esquálido de uma moça com um vestido de flores brancas sobre fundo azul e cabelo negro, e seu rosto pálido e lindo sem um só sopro de vida. Estão deitados no chão e há uma cerca de arame farpado em volta deles. Amontoados, não em fila, e ansiosos, seus parentes, prontos para o reconhecimento: os que antes eram filhos, esposas, mães e pais mantêm os olhos mudos de raiva enquanto esperam a ordem de entrarem no cercado e prantearem os seus. São advertidos pelos guardas para que não façam escândalo, sob o risco de não terem autorização para levar o corpo para o enterro sagrado.

Um homem velho que arrasta os sapatos rotos na lama se agarra com força ao arame da cerca. As lágrimas estão congeladas em suas bochechas e a voz não lhe sai da garganta. Respira com dificuldade, sente dor. Com esforço sobre-humano grita Por quê?, a cabeça para o alto e os braços em cruz. Os guardas se aproximam dele e o arrastam para longe dali, enquanto os demais desviam o olhar e baixam a cabeça, escondendo o medo. Alguns viram de costas e mordem as mãos de raiva, mas não dizem nada.

Os guardas levam o velho até o senhor, o responsável por tudo, o Grande. Com um empurrão, forçam-no a se ajoelhar. O senhor da guerra vai até ele e ri; os demais fazem coro, como corvos. O velho não levanta a cabeça do chão nem faz qualquer outro gesto. As últimas forças que tinha foram gastas no grito de minutos antes. O Grande diz:

— Você perguntou por quê, velho? Ainda não sabe?

O velho levanta os olhos mortos.

— Porque eu posso.

 




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26 de janeiro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos festim, força bruta, morte

               
              
            
                

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