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1 de março de 2017

Vladimir, o enfermeiro

Os sintomas aparecem sempre pela manhã: um tremor na barriga, acompanhado de enjoos e uma sensação de vazio no estômago. Logo depois uma dor de cabeça insuportável, que começa na nuca e se espalha por todo o crânio, chegando quase a afetar minha visão. Em dias assim, vou ao trabalho quase gritando de dor, e é um milagre que consiga atender a qualquer paciente sem desmaiar.

Os anos, porém, me ensinaram a controlar os tremores e a manter a aparência serena. Adquiri bastante prática. Enquanto procuro manter uma conversa tranquilizadora com a pessoa ali sentada, busco a veia mais adequada para a punção e a acaricio suavemente mas com determinação, até sentir o latejar sob os meus dedos protegidos pela luva de borracha. Imagino o sangue fluindo por aqueles dutos minúsculos, os glóbulos flutuando, as plaquetas brincando de esconde-esconde e aos poucos me tranquilizo. Introduzo a agulha com delicadeza na linha azulada e então chega o melhor instante do procedimento: as seringas, duas, vão se enchendo de líquido vermelho escuro. Poucos pacientes estranham quando digo que vou extrair uma terceira seringa — este é para a propina, eu costumo dizer, se estiver de bom humor. Somente quando o doador se levanta, comprimindo o pedacinho de algodão no braço para que a vida não escape por aquele pequeno orifício, eu tomo disfarçamente a minha dose. O calor do líquido me aquece o estômago, enche de alegria cada rincão do meu organismo e me faz renascer. Os tremores cessam de imediato e eu posso finalmente respirar como uma pessoa normal. Com um lenço de papel limpo os lábios manchados de vermelho. Assim tem sido sempre, exceto hoje.

Ah, hoje… hoje cheguei ao ambulatório completamente desnorteado. Uma abstinência forçada, por conta das festas de fim de ano e do Carnaval, estava consumindo minhas forças: sofri o diabo com febre e suores durante as tardes e uma pavorosa insônia nas noites quentes desse verão. O senhor está bem?, me perguntou a moça rechonchuda que me esperava na poltrona, com a manga da blusa já arregaçada. Ela tinha um desses braços brancos, roliços, envoltos numa camada desafiadora de gordura. As veias se escondiam, brincalhonas, sob as pregas de pele e eu tive muito trabalho com a agulha para achar uma delas. Debalde. Pode-se saber o que o senhor está fazendo?, indagou ela, visivelmente incomodada com a minha falta de jeito, justo no momento em que eu cutucava sua pele numa nova tentativa de encontrar a linha azulada. Eu suava, angustiado, com a ansiedade devastando meu rosto e fazendo minhas mãos tremerem. Quando ela se levantou, indignada, fazendo menção de chamar outro enfermeiro, introduzi a agulha em sua papada protuberante e de lá saiu o jorro de sangue mais espetacular que eu já tinha visto, que inundou meu rosto e meu avental branco. Abri a boca para abocanhar o manjar líquido que brotava como chafariz daquele pescoço e me saciei com largos tragos de vida e de alegria.

Ao terminar minha refeição, dei à paciente um pedaço um pouco maior de algodão para que ela interrompesse o fluxo vermelho sob seu queixo. Lançou-me um olhar que dizia O senhor me paga! e saiu da sala pisando duro. Eu acariciei minha agora apaziguada barriga e tive que reprimir um arroto, porque o paciente seguinte já tinha chegado.

Oh, ia quase me esquecendo. Meu nome é Vladimir e sou enfermeiro. Pode me chamar de Vlad.

 




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