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24 de abril de 2017

Você

O semáforo fica vermelho e você dá um soco no volante: não conseguiu se safar de novo! Vê quando o homem deixa a calçada e se aproxima. Você já o conhece, ele está todos os dias nesse mesmo cruzamento em que você parou o seu carro. É coxo de uma perna. O cartaz pendurado no pescoço também é o mesmo, e você sabe de cor o que está escrito: Estou com fome. Chove muito e o homem manco sobrevive à chuva porque está plastificado, tantas águas já recebeu sobre o corpo. Os olhos são os de sempre, inquisidores e curiosos sobre quem está dentro do carro. No rádio informam que a temperatura vai cair mais nos próximos dias. O vidro do para-brisa começa a embaçar e você liga o ar quente. Agora você olha a agulha do marcador de combustível e pensa que tem que abastecer. Você também olha para as outras luzes do painel e repassa na memória o que cada uma delas significa. Depois você olha para o nicho do console ao lado do câmbio e confirma que as chaves de casa estão mesmo lá. Também verifica se seus sapatos estão engraxados. Há sempre muitas coisas para olhar no interior de um veículo, e é isso que você faz, para mostrar que está ocupado com alguma coisa e não tem tempo para saber o que acontece do lado de fora da lataria brilhante do seu automóvel. Você apenas disfarça. A sombra do homem coxo passa por seu carro e você a segue com o canto dos olhos até percebê-la longe. Só agora você levanta a cabeça, respira aliviado e olha para a frente. Você não quer encarar o homem nos olhos e ler outra vez o cartaz que ele traz sobre o peito. Você se sente uma merda. Há três meses que você o vê todos os dias e nunca, nunca lhe deu coisa alguma. Nunca. O semáforo fica verde. Você engata a primeira marcha, acelera e some na avenida. Amanhã, com um pouco de sorte, você não terá que viver novamente esse incômodo.

 




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