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11 de fevereiro de 2016

Vovô

vovôCom o penico numa das mãos e um apagão na memória, meu avô viúvo veio morar em nossa casa. Passava os dias sentado na cadeira da varanda, olhando o vazio. Às vezes me chamava para perto dele e perguntava quem eu era. De uns dias pra cá deu para inventar histórias. Contava casos de vidas passadas como se fossem suas. Um dia explicava que foi bombeiro e lutou contra grandes labaredas que chegavam até o céu. Em outra ocasião foi trapezista de circo, e era o mais corajoso, aquele que pulava de um trapézio ao outro sem rede de proteção. Todos o ouvíamos com atenção e ninguém dizia palavra. Minha mãe virava o rosto para esconder a lágrima.

Naquela época não tínhamos muitas posses, e manter vovô em condições minimamente confortáveis era muito dispendioso. Resolvemos alugá-lo. Nessas redondezas sempre havia uma viúva desconsolada e esquecida que necessitava reavivar a memória e nutrir as ilusões, ou uma solteirona que precisava de companhia para passear no parque, ou o funeral de um conhecido da família, que ficaria enfadonho sem a presença sempre alegre de vovô. Ele, sua risada tonitruante e suas histórias malucas eram sempre boa companhia para essa gente solitária e de vida opaca. Nós o alugamos por hora, por dias e também por semanas, ao gosto e necessidade do freguês. Nesses tempos de crise, vovô tem nos rendido um bom dinheiro.

 




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11 de fevereiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos aluguel, apagão, memória, vovó

              
            
  1. Que bom que você tenha acreditado em quem disse que você tinha jeito com as palavras, Mário. Com que maestria você tratou do cômico e do trágico e conseguiu um produto especial para uma leitura deliciosamente agradável!

    • Marlene, que comentário generoso! Muito obrigado. Você acertou o ponto: eu quis mesmo mesclar o trágico e o cômico e produzir um texto leve sobre um tema grave. Alugar pessoas? Onde já se viu isso? Obrigado, obrigado por sua leitura. Abraço.

  2. Mário, por favor, você tem o contato da família!? Quero alugar o vovô por alguns dias! (hahaha)

    Adoro as guinadas que você nos reserva em meio às palavras tão bem lapidadas, em textos que a grosso modo parecem “curtos”, mas são tão cheios de significado!!!

    RG

  3. Surpreendente, maravilhos, com que maestria algo táo trágico se torna lírico com suas palavras
    Estou louco para envelhecer e dar uma renda extra á familia

  4.     
                        
              
            
                

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