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10 de setembro de 2014

Esses dois

Sempre às turras, como se não vivessem dentro do mesmo corpo – o meu! -, minha cabeça e meu coração se detestam. Já não se suportam mais. Tenho a todo momento que apartar suas discussões acaloradas, e o resultado é que termino o dia exausto. Ouvi dizer que ambos acalentam planos de homicídio e é minha obrigação evitar que uma desgraça assim aconteça; não quero que um mate o outro. O fato é que estou dividido, e isso não é bom para mim, não é bom para ninguém.

A cabeça não para quieta, é acelerada, pensa que tem vida própria e faz o que quer. Ri muito de mim, cria histórias a torto e a direito, mente quase o tempo todo, faz intriga, inventa coisas que não existem, apresenta razões sem cabimento, é impertinente, encontra defeito em tudo, forja teorias estapafúrdias, lança palavras de ordem e depois, feito uma criança travessa, se acalma, se recolhe e aprecia de camarote o estrago que fez ao redor. Essa cabeça tem me dado muito trabalho.

O coração, bem, esse tem um estilo completamente diverso. É mais lento para tudo, gosta de pensar bastante antes de agir, é gentil, caloroso e ingênuo como um bebê. Isso não impede que, principalmente nas discussões com a cabeça, se mostre duro e cheio de raiva; nessas ocasiões o coração diz cada coisa… No mais das vezes, gosta de olhar as nuvens, a lua e não raro se comove com a dor do mundo. Voa, é atrapalhado, derruba coisas, sorri sem graça e às vezes chora. Sonha sempre. Não posso negar que esse coração, a seu modo singelo, tem me deixado muito mal em várias oportunidades.

“Você é um bobão!”, diz a cabeça; o coração não responde e faz cara de paisagem. Há poucos dias conversei com ela, que declarou com rispidez: “Quer ficar com esse coraçãozinho molenga? Pois fique! Eu não aguento mais essa situação. Você faça sua escolha: ou eu ou esse sujeitinho cheio de sonhos, de ilusões, de nuvens branquinhas e céus azuis. Eu vou embora daqui.”. Fiquei muito preocupado. Amanhã terei uma conversa franca com o coração e tentarei solucionar esse impasse. Serei duro e direto, sem contemplação, ainda que isso me custe. O coração terá que mudar seu comportamento. Ficar sem cabeça? Deus me livre!

 




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