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1 de abril de 2019

Sobre dormir e sonhar

Quando dormimos juntos, eu e você somos dois viajantes imóveis, que vão de mãos dadas a destinos distintos — ilhas solteiras, com fauna e flora próprias, separadas por um mar enorme de silêncio.

Às vezes um sonho intrometido nos abarca e não nos deixa voltar à consciência. A isso chamamos morte. Impedimos sua ação mutilando-o (um ou dois membros, ou a cabeça) e trazendo-o à superfície ainda vivo, ainda pulsando (o que é sonhar senão uma caça cheia de momentos selvagens e indomáveis?).

Sonhar é transportar algures o próprio ser, mas esquecer o corpo na cama, ou na carroceria de um caminhão, ou em alguma sala de espera.

No tempo em que os sonhos ainda não existiam, nos ensinavam desde pequenos a pensar numa lembrança boa ou a contar carneiros inexistentes até que o torpor nos dominasse e conseguíssemos, enfim, ressonar. Funcionava.

Há quem sonhe em outro idioma, visite outros países, abra suas intimidades a estranhos. Os sonhos são pátrias portáteis, nações transitórias — inconsciência embalada para exportação.

Todos os dias alguém, em algum lugar do mundo, sonha conosco. Um tecido de sonhos ao redor do planeta nos mantém vivos e unidos. A democratização do dormir.

Durante a noite é possível perceber o lento caminhar do tempo orgânico, as horas silenciosas rastejando sobre os corpos desfalecidos. Também à noite se funde o silêncio de todos. Nosso silêncio deixa de nos pertencer. Alguém é capaz de reconhecer o próprio silêncio no meio de todos esses que são um só?

Já deixei claro que, quando morrer, quero ser enterrado em sua boca. Sonhei que ali brotaria um jardim.

 




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