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20 de abril de 2021

Surra

Otília trabalha numa creche cheia de crianças, é supervisora. Ernesto é diretor num grande escritório de advogados. São os pais de Alice, que tem três anos e há três anos é a alegria da casa. Otília e Ernesto se desdobram para dar a Alice tudo o que Alice pede: são pais devotados, dedicados, amorosos. Às vezes perdem a paciência com a filha e se aproximam perigosamente da fronteira entre o amor e o ódio. Não fosse sua rígida formação cristã, há ocasiões em que Otília e Ernesto dariam na menina uma boa e inesquecível surra. Uma surra corretiva e para o bem da criança, como devem ser as surras que os pais dão nos filhos.

Exatamente como hoje: hoje é uma dessas ocasiões. Ódio: Otília e Ernesto sentem ódio da filha, que acordou muito cedo, exigente, pirracenta e mandona além do habitual. Ernesto sente desejo de quebrar coisas, atirar um vaso contra a parede, estilhaçar as vidraças, jogar todos os pratos no chão. Otília tem vontade de gritar e arrancar os próprios cabelos. Ernesto se esforça para conter seu impulso de surrar a filha, esbofetear e humilhar Otília, destruir a casa: ele se contém. Otília segura o grito na garganta e enfia goela abaixo de Alice o pedaço de pão com manteiga.

Quando chega ao escritório, Ernesto despeja sobre seus funcionários o ódio represado no peito. Otília aprendeu com o marido a fazer o mesmo. Ele é diretor num grande escritório de advogados. Ela trabalha numa creche cheia de crianças, é supervisora.

 




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