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30 de junho de 2021

Vazios

Meu pai morreu há mais de trinta anos e, ainda hoje, há noites em que a sua falta me desorienta e desconsola. Não consigo dormir. Quando a insônia se torna insuportável e a ausência dele se transforma em algo tão sólido que se pode cortar com faca, pego o telefone e marco o número da velha casa onde nasci e me criei. Até hoje nunca falhou: mesmo que a casa não exista mais — há um estacionamento no lugar —, meu pai sempre atende. “Alô, pode falar, quem está do outro lado?”. Ouço sua inconfundível voz de tabaco. Aliviado, desligo sem dizer palavra. Volto para a cama pensando que neste mundo há vazios que nunca serão preenchidos. Sei que, se alguma vez eu responder, o encanto vai se quebrar e o milagre deixará de acontecer. E eu não dormirei nunca mais.

 




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